Caetano escribe sobre Décio Pignatari

Leemos esta columna de Caetano Veloso sobre el gran poeta vanguardista fallecido el año pasado:

Geral

Tenho muito orgulho de ter brigado publicamente com Décio Pignatari e de tê-lo amado antes, durante e depois desse episódio

Tenho muito orgulho de ter brigado publicamente com Décio Pignatari e de tê-lo amado antes, durante e depois desse episódio. Ele foi — ele é — uma figura tão imensa que qualquer um pode se orgulhar para sempre de ter tido qualquer tipo de contato com ele. Décio deu as chaves para que eu entendesse o que Augusto, Haroldo e ele propunham. Ele não era um grande polemista na discussão direta com seus (às vezes passageiros) desafetos. Mas era O grande polemista das ideias por trás de todos os indivíduos ou grupos. A briga era sempre mais alta do que suas manifestações factuais faziam crer. Se dermos o peso devido ao período de poesia em verso, ele foi o maior dos três poetas paulistas. O que faz de Augusto um poeta superior a Décio é o modo como ele tratou os desdobramentos do concretismo. Como poeta, Augusto traçou uma linha própria em que cada novo poema torna os anteriores mais fortes. Mas Décio, além de ser o melhor desde antes, foi como que o dínamo que fez o grupo arder e brilhar. Augusto nunca se cansou de repetir que Décio é o grande inventor, e o olhava como a um mestre. Camarada de trincheira, mas mestre.

O curioso é que Décio sempre me deu a impressão de meninice. Eu chiava com Augusto das travessuras de Décio. Mesmo eu, que em nada me pareço com um adulto, falava das grosserias de Décio com Augusto como se este e eu fôssemos dois homens sensatos e Décio, um garoto malcriado.

No entanto, Décio me tratou sempre como um menino por quem ele tinha carinho e em cujo trabalho ele tinha algum interesse, sempre com um perdão condescendente quando topava com minha ignorância e minha inépcia. A última vez em que estive com Décio, ele, já meio fora do tempo, lembrava-se de Orácio. E Augusto lhe pedia que repetisse canções alentejanas. Achei-o muito Décio nesse encontro. Não sabia de antemão que ele estava mais e mais desmemoriado — e julguei que certos cortes bruscos, certas incoerências na conversação fossem novas cenas do velho Décio. Aos poucos fui me dando conta de que havia ali um impedimento fisiológico, físico, químico, que o levava a outras liças com os signos. Como Augusto, suponho que o futuro verá Décio maior do que ele pode ser visto pelo presente. Para quem o conheceu — incluídos aí seus filhos Dante e Serena —, ele era indigesto e adorável.

A expressão “geleia geral” surgiu num texto de abertura da revista “Invenção” e tinha um sentido crítico. Num poema deslumbrante — que justifica meu entusiasmo pelo todo da obra poética de Augusto —, este faz um retrato de Décio (inclusive levando as letras a desenharem seu perfil aquilino) que diz: “a geleia geral/ que lhe deve até o nome”. É — no mínimo — isso.

Parece que eu estava escrevendo o nome de Perinho Santana para ser publicado nesta página quando o amado músico morreu. Na verdade, acho que escrevi o texto que falava da Outra Banda da Terra na noite anterior à morte de Perinho. Foi um grande susto a notícia: eu não sabia que ele estava doente. Senti muita tristeza e muita saudade. Quantos brasileiros sabem que o que os encanta na gravação original de “Sampa” é um fraseado de violão que devemos a ele? Quantos, a levada frasal de “Queixa”? Pensei muito sobre as noites de ensaio e gravação com a Outra. Mas o pensamento que ficou em loop em minha cabeça foi o da tranquila firmeza com que Perinho me disse e dizia: “Não tenho medo nenhum de morrer”. Eu, que tinha muito medo, ficava fascinado com a paz. Ele dizia que praticamente nunca pensava na morte, mas que, se alguém lançava o assunto, ele pensava e tinha certeza de que isso não o amedrontava em nenhum nível. Espero que essa mansidão o tenha acompanhado até o último momento. A doçura de sua música não vai nos abandonar jamais. Talvez sua tranquilidade diante da morte viesse de ele se saber todo nessa doçura.

Aquelas formas do varandão do Alvorada foram o encantamento da minha adolescência. Vários comerciantes e meros proprietários domésticos imitavam-na de modo risível. Voltar a ver o original, mesmo em fotos, era extasiante. Dizem que Niemeyer deu novo destino ao concreto armado. Há quem não goste do que ele fez. Há quem deteste Brasília. Eu gosto. E mesmo que não gostasse reconheceria a importância. Por outro lado, ele foi um comunista que não se abalou com a queda do império soviético. Burle Marx dizia que ele era um típico carioca praieiro. Em vários lugares do mundo, ele ergueu monumentos que agora lhe servem de homenagem. O modernismo brasileiro encontrou uma forma de encorpar-se em Oscar. São João Bosco, Agostinho da Silva e FHC me fizeram olhar Brasília com os melhores olhos futuros. Olhos do Quinto Império. Magno e Vieira.



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