Mostra reúne artistas que operam em registro anticomercial (O Estado de Sao Paulo)

A coletiva ‘Lo Bueno y lo Malo’ (O Bem e o Mal) reúne obras de doze artistas e dois coletivos

A mostra inaugural do novo espaço da Galeria Nara Roesler, onde antes funcionava a galeria Thomas Cohn, tem um efeito desestabilizador num cenário dominado pela mercantilização da arte. A coletiva

Lo Bueno y lo Malo (O Bem e o Mal), com curadoria do mexicano Patrick Charpenel, em sua primeira intervenção no circuito brasileiro, reúne obras de 12 artistas e dois coletivos (o dinamarquês Superflex e o francês Claire Fontaine) que têm em comum o desejo de trocar experiências e colocar em discussão práticas culturais que envolvam o dinheiro como intermediário.

O slogan do grupo Claire Fontaine logo à entrada da galeria resume a proposta: “Capitalism kills love” (Capitalismo mata o amor). Está claro que os integrantes do grupo não são ingênuos a ponto de ignorar que estão numa galeria comercial, mas participam porque acreditam em modelos experimentais capazes de alterar as condições de produção de arte sem se dobrar ao poder do mercado.

O outro coletivo, Superflex, de certo modo, completa a obra do Claire Fontaine com um vídeo sobre a crise financeira pós-2008. Para quem não se lembra, o grupo, criado em 1993, foi impedido de mostrar a obra

Guaraná Power na 27.ª Bienal de São Paulo, projeto em que os integrantes do coletivo fabricavam um guaraná alternativo com a ajuda de plantadores locais da fruta, confrontando o poder das multinacionais fabricantes do refrigerante.

O curador Charpenel, diretor da coleção mexicana de arte da Fundación Jumex, justamente mantida por um fabricante de sucos, Eugenio Lopez Alonso, não ignora o que significou a censura ao Superflex na mostra brasileira, mas diz que seu objetivo, antes de ser revanchista, é o de superar os velhos dogmas do sistema de produção e consumo e contestar os valores morais do mercado globalizado de arte, dominado pela tríade artista, galerista e colecionador.

Dificilmente algum colecionador estaria interessado nas condições impostas pelos artistas para participar da coletiva. A galerista, surpreendentemente, aceitou. A “obra” da mexicana Minerva Cuevas, por exemplo, consiste em cartas de recomendação de desempregados, que a marchande Nara Roesler concordou em assinar. Não satisfeitos, outros artistas participam com trabalhos insólitos, como a performance do polonês Pawel Althamer, que exigiu da galeria o compromisso de atender a três pedidos da faxineira. Ela não usou o “contrato moral” para pedir aumento, mas decretou que o banheiro da galeria não pode ser mais unissex; o novo espaço deverá ter flores durante os três meses da exposição e a cozinha deve ganhar um aparelho de TV.

O curador Charpenel revela que seu modelo inspirador para

Lo Bueno y Lo Malo foi o artista cubano Félix González Torres (1957-1996). Criado em Porto Rico, ele ganhou uma bolsa de estudos e foi para Nova York em 1979, aderindo ao Group Material em 1987, coletivo baseado num trabalho colaborativo de ativismo cultural e educação comunitária. O coletivo chamou a atenção do Museu de Arte de Berkeley, que o convidou para desenvolver um trabalho de reflexão sobre aids, em 1989. González Torres morreria em consequência de complicações advindas da doença, metaforizando a relação com o companheiro morto Roy Laycock numa instalação feita de doces que os visitantes da exposição comiam numa espécie de comunhão ritual. González Torres receberia uma homenagem póstuma em 2007, ao ser escolhido como representante dos EUA na Bienal de Veneza.

“Ele significa para mim a possibilidade de interação real entre artista e público, que aceita levar, de forma simbólica, uma parte do sofrimento da criação incorporado a seu corpo, e não um objeto, como numa relação de troca”, justifica Charpenel, revelando que a crise financeira de 2008 foi decisiva para que ele se reencontrasse com a obra de González Torres. É enorme a ressonância desse trabalho – derivado, em parte, das propostas autorreferentes do artista conceitual norte-americano Joseph Kosuth. “Temos na mostra artistas latinos, europeus e asiáticos que foram marcados pelas proposições analíticas do cubano, como o uruguaio Alejandro Cesarco com o vídeo Zeide Isaac.”

Cesarco filmou o avô, sobrevivente do Holocausto, escrevendo para ele um roteiro de sua vida para que representasse a si mesmo. “Como a memória é traiçoeira, o avô reinventou a própria história, fazendo alterações no roteiro”, conta o curador.

Trocando a aparência dos objetos pelo conceito que exprimem, o vietnamita Dahn Vo expõe a transcrição que seu pai Phung Vo fez da carta do missionário francês Jean-Théophane Vénard (1829-1861) ao pai, antes de ser decapitado, em Tonkin, Vietnã. “Ele memorizou as letras em forma de desenho, após visitar o local onde está a cabeça do santo, mesmo sem saber uma só palavra de francês.”

Na direção contrária a essa relação afetiva que se espera entre pai e filho, o esloveno Romand Ondák roubou as poucas moedas do bolso do filho de 5 anos para expor na galeria, metaforizando a transformação da arte em mercadoria.

Ondák causou certo embaraço diplomático na última Bienal de Veneza ao deixar a vegetação local cobrir o pavilhão de seu país, num gesto franco de oposição às representações nacionais na mostra, que separa não só países, mas artistas. “Não vejo a arte dentro de um processo econômico que decide arbitrariamente o valor econômico e histórico de uma peça”, conclui o curador. “Arte não é vitrine, mas um meio de aproximar as pessoas.”

LO BUENO Y LO MALOGaleria Nara Roesler. Avenida Europa, 655, tel. 3063-2344.

De 2ª a 6ª, das 10 h às 19 h; sáb., das 11 h às 15 h. Grátis. Até 6/10.



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