Nueva película de Jia Zhangke

Se lee hoy en O Estado, sobre el director de Naturaleza muerta:

Luiz Carlos Merten – O Estado de S. Paulo

Havia gente decepcionada com Jia Zhang-ke em Cannes, em 2010. Integrado de última hora à seleção oficial do maior festival do mundo, seu documentário I Wish I Knew desembarcou na Croisette com o que parecia uma credencial negativa. Nascido em 1970 e integrante da sexta geração do cinema chinês, Jia se converteu no grande crítico das transformações ocorridas no país. De The World a Still Life, sobre a construção da represa de Três Gargantas, seu cinema mostra como, em nome do progresso, a tradição é esmagada e os indivíduos são manipulados e oprimidos de uma forma até mais escandalosa do que sob o comunismo.

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'I Wish I Knew', que estreia no Brasil como 'Memórias de Xangai', nasceu como obra de encomenda - Divulgação
‘I Wish I Knew’, que estreia no Brasil como ‘Memórias de Xangai’, nasceu como obra de encomenda

Esse seria o Jia Zhang-ke de antes, porque I Wish I Knew, que estreia no Brasil como Memórias de Xangai, nasceu como obra de encomenda, para ser mostrada na Exposição Universal de 2010. Seria ‘oficial’, portanto – mas não é verdade. Em Cannes, com a ajuda de intérprete, Jia diz que tinha 4 anos quando Michelangelo Antonioni fez A China. O filme foi alvo de uma campanha difamatória no país, que vivia a Revolução Cultural. Em nome dos preceitos do Livro Vermelho do camarada Mao, o grupo dirigente dos 4 realizava expurgos furiosos.

“Era a época da autocrítica, e Antonioni foi à China fazer um filme que não se enquadrava no que era nossa história. Assisti a seu documentário anos mais tarde, e aquelas eram imagens da China que não eram as oficiais, a que estávamos sujeitos. Encantou-me em especial a cena que retrata a casa de chá em Xangai. Eu não entendia o que aquelas pessoas diziam, mas havia algo ao mesmo tempo familiar e estranho, que me perturbava. O filme ficou comigo. Permanece até hoje”, avalia o diretor. Xangai virou um mistério para ele, que descobriu que a cidade sempre foi muito cinematográfica. “Importantes personalidades artísticas, políticas e militares estão ligadas a ela. Durante muito tempo sonhei com uma ficção para tentar decifrar esse mistério. Foi quando veio a proposta para o documentário”, resume.

Reconciliação. Jia nem sabe explicar como, num país tão dominado pela censura – a China neocapitalista, neste sentido, é herdeira da comunista -, a proposta que lhe foi feita era para a realização de um filme que ajudasse o mundo, e os chineses, a conhecerem Xangai. Ele pesquisou mais do que para qualquer filme que tenha feito antes. Descobriu que, para decifrar o enigma de Xangai, tinha de encarar a diáspora chinesa. Quando os nacionalistas de Chiang Kai-chek foram derrotados pelos comunistas de Mao, levas de chineses deixaram a China, a partir de Xangai, e foram para Hong-Kong e Taiwan. No que parecia impossível, pouco tempo atrás, e dentro de um esforço de reconciliação nacional, Jia dá voz, senão exatamente a esses dissidentes, aos que descendem deles.

“Gostaria de ter filmado os chineses no Brasil, em São Paulo, que me atraiu tanto (NR – ele foi homenageado pela Mostra), e nos EUA, mas percebi que seria outro filme, com outras histórias. Procurei um antigo assistente de Antonioni, e foi, aí sim, que me dei conta de como eram profundas as ligações entre Xangai e o cinema”, disse Jia. Pesquisando, chegou a uma lista de 80 possíveis entrevistados, reduzidos a 18, por motivos operacionais. Muita gente de cinema. Huang Baomei, uma antiga operária da indústria textil, que participou de um filme do cineasta oficial Xie Jin, como representação da operária padrão. Wei Wei, que integrou o elenco de Primavera na Aldeia, de Fei Mu, de 1948, e Barbara Fei, filha do cineasta.

Começou a se desenhar uma história do próprio cinema chinês, compreendendo o período “proibido” de 1949 a 79, entre a tomada do poder pelos comunistas e o fim da Revolução Cultural. Jia entrevistou o cineasta taiwanês Wang Toon, cujo pai foi oficial do Exército chinês antes de abandonar o país, em 1939. E a cantora de Xangai, Rebeca Pan, que participa dos filmes de Wong Kar-wai. Jia quase não filma Xangai, mas a paisagem interior dessas pessoas. Constrói uma história não oficial da China, discute a identidade chinesa e a relação com a China continental e a ocupação japonesa. O mérito de I Wish I Knew é dar voz a quem não a tinha. Um cinema da palavra, que reflete e regenera. Jia admite que sua geração não conhece muito a história da China, continuamente reescrita pela propaganda. “Graças ao trabalho de preparação deste filme, agora sei um pouco mais.”



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